Cogitações #8

#1. Hoje é dia de ir à Ana Freud. Durante a semana, penso em alguns assuntos impreteríveis que  gostaria de abordar na próxima sessão, mas quando entro na saleta e me sento no sofá – não me deito numa chaise long,  como bem gostaria! -, começo por falar da primeira coisa que me vem à cabeça, e a coisa costuma resultar. A Freud é uma analista previsível e já sei qual é a primeira pergunta que me vai fazer: “Então, como tem passado?”. Não falha! É uma espécie de mecha de rastilho para o monólogo moderado que se segue. Mas o que dá mais raiva, é quando estou embalado no desfiar dos meus desabafos, e a Ana Freud, implacável como sempre, dita: “Tenho muita pena e acredito que ainda muita coisa haveria para dizer, mas fica para a próxima sessão”. E lá vão os meus 55 € derretidos em palavras,  à média de 1€ por minuto. Assim também eu enriquecia, à pala dos malucos!  

#2. Estou à espera da hora de saída do emprego. Neste entretanto, é bom que finja estar ocupado, e o facto de trabalhar com recurso à Internet ajuda à camuflagem. Um semblante circunspecto, cara de sem-vergonha, os óculos espetados no nariz, e, sobretudo, o ar geral de quem está concentrado numa tarefa profissional, compõem o ramalhete. Eu só engano quem quer ser enganado, e assim ficamos todos mais formais e mais felizes.

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