Um sábado como outro qualquer

Com o tempo assim como tem estado nem apetece sair de casa para lado algum. Eu e a minha parceira fomos dar uma volta pelo centro, só para não dizer que ficámos em casa metidos no pijama e esticados no sofá; ou, mais comummente, eu na Internet e ela na sala a devorar filmes. Hoje comprei-lhe um casaco novo e ela ficou toda contente. Aos fins-de-semana não lhe posso ser infiel, pois não tenho desculpa para sair de casa. O mesmo não acontece durante a semana, pois a natureza do meu trabalho proporciona incomunicabilidade e, quase sempre, longos serões que se prolongam até à noite. A fidelidade é um valor. Eu sei. E como todos os valores são teleológicos, lugares improváveis de chegada, mas que apesar disso se assume para que se deve tender. Por convicções éticas, ou estéticas, convencionou-se que ser infiel é reprovável. Aceito que possa ser verdade com a mesma disponibilidade com que aceito o oposto. Mas, ainda assim, sou mais feliz sendo-lhe infiel; e esta verdade é incontornável. Se formos sempre fiéis ao anteriormente estabelecido, no limite, paramos o nosso desenvolvimento antes mesmo da maioridade e ficamos submersos nos juramentos, promessas, obrigações e compromissos que julgámos num dado momento e num dado contexto ser a nossa verdade ou o nosso destino. E porque continuo com ela, pergunto-me? Porque hei-de eu mudar de parceira se a única coisa que me apetece variar é o corpo com quem faço sexo, e tudo o resto está bem para mim?! Cínico, dirão todos os que eventualmente leiam estas palavras. Mas a verdade, nua e crua, é sempre confrangedora e só o fingimento e a maquilhagem ajudam a atenuar esta dureza. Se acreditarmos que o desenvolvimento humano é um processo contínuo que só termina quando os indivíduos terminam, falar de fidelidades ou de verdades absolutas, a torto e a direito, é um arcaísmo que valia a pena extinguir, por inútil e falacioso. Daqui a nada vamos jantar. Depois ela vai para a cama – deita-se sempre cedo – e eu fico no escritório até tarde. Quando me deito já a oiço ressonar. Leio algumas páginas do livro de cabeceira e respiro de alivio por não ter de cumprir o débito conjugal. E este é, para mim, um sábado como outro qualquer.

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