Vou dizer a verdade…

Às vezes ponho-me a pensar o que seria do mundo se, fossem quais fossem as circunstâncias, dissemos sempre a verdade. Não acredito que, depois disso, houvesse esperança de sobrevivência possível para a espécie humana. Matávamos-nos uns aos outros num ápice. A verdade, entre os paramentos da ética, é talvez a coisa mais difícil de alcançar e preservar, e não consigo imaginar a sociabilidade humana sem a mentira. Todos nós mentimos, uns mais, outros menos, seja por omissão, por acção, por simulação, ou por qualquer outra forma que agora não me lembro. Há mentiras piedosas, dolosas, ou menos dolosas, mas todas, sem excepção, por mais patine que se lhes ponha em cima, são mentiras. A mentira é intrínseca à espécie humana, embora eu ache que os animais também mentem. O meu cão, por exemplo, é um dos maiores mentirosos que eu conheço. Finge-se com dores, gane, late miudinho, só para que eu lhe faça festas ou para ganhar um doce. É um pantomineiro adorável, mas não deixa de ser um grande mentiroso, o que o aproxima ainda mais do género humano, em especial da minha pessoa.

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A origem dos conflitos

Esta plataforma de blogues tem tantas capacidades que até perdi a vontade de saber como funcionam, se não ainda fico parecido com os adolescentes com telemóveis caros, repletos de toques polifónicos,  MP4, câmara digital, e o raio que os parta, que até se esquecem que aquela coisa serve, sobretudo, para telefonar! Acho que ultimamente ando demasiado implicativo com tudo, e também comigo mesmo. Por exemplo: neste momento estou a embirrar com as minhoquices que o Word Press coloca à disposição dos utilizadores de blogues, só porque me apeteceu embirrar. Esta coisa da vontade de embirrar tem muito que se lhe diga. Quando nós estamos menos felizes, embirramos mais com tudo, porque é a nossa forma “adulta” de expandirmos as nossas frustrações. Mais valia que fôssemos espontâneos como as crianças pequenas que choram sempre que lhes apetece, e estão-se completamente a marimbar para quem ache que o seu comportamento é desadequado. Nestas coisas da “expansão das tristezas”, os chefes ficam sempre a ganhar, pois podem expandir sobre os subordinados tudo aquilo que não podem expandir em casa. O mesmo não se pode dizer dos subalternos, que, ou expandem sobre os ainda mais subalternos, ou, na falta deles, expandem necessariamente em casa; sobre quem geralmente não tem culpa nenhuma. E este é, seguramente, um bom tópico para o inicio de uma teoria sobre a origem dos conflitos.

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Um sábado como outro qualquer

Com o tempo assim como tem estado nem apetece sair de casa para lado algum. Eu e a minha parceira fomos dar uma volta pelo centro, só para não dizer que ficámos em casa metidos no pijama e esticados no sofá; ou, mais comummente, eu na Internet e ela na sala a devorar filmes. Hoje comprei-lhe um casaco novo e ela ficou toda contente. Aos fins-de-semana não lhe posso ser infiel, pois não tenho desculpa para sair de casa. O mesmo não acontece durante a semana, pois a natureza do meu trabalho proporciona incomunicabilidade e, quase sempre, longos serões que se prolongam até à noite. A fidelidade é um valor. Eu sei. E como todos os valores são teleológicos, lugares improváveis de chegada, mas que apesar disso se assume para que se deve tender. Por convicções éticas, ou estéticas, convencionou-se que ser infiel é reprovável. Aceito que possa ser verdade com a mesma disponibilidade com que aceito o oposto. Mas, ainda assim, sou mais feliz sendo-lhe infiel; e esta verdade é incontornável. Se formos sempre fiéis ao anteriormente estabelecido, no limite, paramos o nosso desenvolvimento antes mesmo da maioridade e ficamos submersos nos juramentos, promessas, obrigações e compromissos que julgámos num dado momento e num dado contexto ser a nossa verdade ou o nosso destino. E porque continuo com ela, pergunto-me? Porque hei-de eu mudar de parceira se a única coisa que me apetece variar é o corpo com quem faço sexo, e tudo o resto está bem para mim?! Cínico, dirão todos os que eventualmente leiam estas palavras. Mas a verdade, nua e crua, é sempre confrangedora e só o fingimento e a maquilhagem ajudam a atenuar esta dureza. Se acreditarmos que o desenvolvimento humano é um processo contínuo que só termina quando os indivíduos terminam, falar de fidelidades ou de verdades absolutas, a torto e a direito, é um arcaísmo que valia a pena extinguir, por inútil e falacioso. Daqui a nada vamos jantar. Depois ela vai para a cama – deita-se sempre cedo – e eu fico no escritório até tarde. Quando me deito já a oiço ressonar. Leio algumas páginas do livro de cabeceira e respiro de alivio por não ter de cumprir o débito conjugal. E este é, para mim, um sábado como outro qualquer.

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Coisas que me fazem comichões

1. Ainda não tenho o cartão do cidadão e tenho uma enorme pena quando tiver um dia de perder o meu bilhete de identidade. Gosto muito do tamanho e do formato dele e vou adiar o máximo que puder a inevitabilidade de ter de aderir a mais uma destas modernices do simplex. “Cartão do cidadão”! Hummm… Será que só nos tornamos cidadãos depois de obter o dito cartão? Pelo menos é o que o nome indica…

2. Há uma colega minha com quem eu adorava ir para a cama. Ela lança-me olhares maliciosos e eu finjo que não percebo. Ela perturba-me. Ela é casada com dois filhos. Eu sou casado. Ela “mexe” comigo e sei que se apercebe disso. Será que ela quer gozar com o “coitado” ou está mesmo a dar-me “bola”? Se calhar nunca saberei… mas gostava de saber.

3. Amanhã vou à médica. Não queria nada acordar cedo. Bolas! Não tenho pachorra para doenças!

4. Esta noite sonhei que vivia num país muçulmano e que tinha um harém à minha disposição. Pena é que o despertador tenha tocado…

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Cogitações #9

#1. Este fim-de-semana vou fazer algo diferente. Uma coisa radical: vou andar de balão, tal como no livro do Júlio Verne. Mas o mais radical de tudo – coisa que eu não vou de todo fazer – é saltar de pára-quedas lá do alto; e alguns malucos, sei-o, vão mesmo atirar-se. Eu, no recato da cesta, contentar-me-ei com a observação das vistas, que dizem ser soberbas, e com o radicalismo superlativado dos meus comparsas, porventura ainda mais malucos do que eu.

#2. Cheguei ao número 9 das cogitações. Daqui para a frente, das duas uma: ou contínuo infinitamente a cogitar; ou mudo a nomenclatura.

#3. Esta noite vou comprar um chocolate milka de 300 gramas e espojar-me no sofá a fazer zapping pelos canais da tv cabo. De quando em quando, no telecine, lá aparece um filme do meu agrado. Nos tempos que correm, em prol da contenção de gastos, as actividades decadentes, e de custo mínimo, encontram em pleno a sua justificação. É barato não fazer nada, ficar em casa, ler um livro, ouvir música, dormir no sofá, fazer zapping. Tudo o que envolva saídas, no meu caso, envolve despesas avultadas.

#4. Faltam 90 minutos para começar o meu fim-de-semana, e começo a perceber finalmente o que é o tempo psicológico e o tempo real.

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Cogitações #8

#1. Hoje é dia de ir à Ana Freud. Durante a semana, penso em alguns assuntos impreteríveis que  gostaria de abordar na próxima sessão, mas quando entro na saleta e me sento no sofá – não me deito numa chaise long,  como bem gostaria! -, começo por falar da primeira coisa que me vem à cabeça, e a coisa costuma resultar. A Freud é uma analista previsível e já sei qual é a primeira pergunta que me vai fazer: “Então, como tem passado?”. Não falha! É uma espécie de mecha de rastilho para o monólogo moderado que se segue. Mas o que dá mais raiva, é quando estou embalado no desfiar dos meus desabafos, e a Ana Freud, implacável como sempre, dita: “Tenho muita pena e acredito que ainda muita coisa haveria para dizer, mas fica para a próxima sessão”. E lá vão os meus 55 € derretidos em palavras,  à média de 1€ por minuto. Assim também eu enriquecia, à pala dos malucos!  

#2. Estou à espera da hora de saída do emprego. Neste entretanto, é bom que finja estar ocupado, e o facto de trabalhar com recurso à Internet ajuda à camuflagem. Um semblante circunspecto, cara de sem-vergonha, os óculos espetados no nariz, e, sobretudo, o ar geral de quem está concentrado numa tarefa profissional, compõem o ramalhete. Eu só engano quem quer ser enganado, e assim ficamos todos mais formais e mais felizes.

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Cogitações #7

#1. Ainda não saí do tema “Cogitações” e, por este andar, acreditando que os números são infinitos, o blogue pode muito bem ser formado por uma desfiada de cogitações sem fim. Se concebi este blogue como um espaço essencialmente dedicado àquilo que, para mim, é indizível em público, o vocábulo cogitações, enferma de um pecado tautológico. Mas é infinitamente – adoro advérbios de modo – reconfortante escrever sem dead lines, máscaras, timings, ou quaisquer peias que nos condicionem.

#2. Gosto da lisura deste blogue, do seu look minimalista, do template que não distrai o leitor para outra coisa qualquer que não seja a prosa nele contida. A tentação para carregar os blogues com bonecada e vídeos é, sobretudo, sentida por todos aqueles que receiam sujeitar-se ao escrutínio daquilo que escrevem, seja por acharem que escrevem mal, seja por nada terem para dizer.

#3. O ano passou num ápice. Daqui a nada estamos de novo no Natal, aquela festa hipócrita em que todos fingimos gostar das reuniões em família, de dar prendas, e nos “apiedamos” pelos mais necessitados. Uma vez por ano, qual exercício salutar, temos de exorcizar a nossa má consciência do absoluto egotismo que nos enforma. O Natal é, sobretudo, isso: uma festividade pagã, travestida de laivos católicos, repleta de boas intenções e vontade de mudança – ainda que todos saibamos que depois fica tudo na mesma.

#4. Por alturas do Natal, ofereço algumas prendas mas, para além do costumeiro obrigado, nunca recebo nada em troca. Mas, não faz mal. Gosto mais de dar do que receber. E só quem nunca experimentou a sensação de ver a alegria e os olhos brilhantes daqueles a quem damos presentes, sabe daquilo que falo.

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